Professores
e estudantes universitários promovem ato contra criminalização
de camponeses
...os
massacres que produziram rios de sangue têm todos uma similaridade:
os que terminaram dizimados foram, antes, caracterizados como
perigosos foras da lei
Política
em Três Tempos - Por Paulo Queiroz
1
– ATO PÚBLICO
“A
Luta Pela Terra Não é Crime”, proclama o cartaz
do “Ato público contra a criminalização
e repressão do movimento camponês” que acontece
a partir das 9h30 desta sexta-feira (04), no auditório
Paulo Freire, no campus da Universidade Federal de Rondônia
(Unir) José Ribeiro Filho, em Porto Velho, numa realização
do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (Cebraspo) e do
Comitê em Defesa da Revolução Agrária
e dos Direitos dos Povos, com apoio do Sindicato Nacional dos
Docentes (Andes-Regional Norte 1), da Associação
dos Docentes da Unir (Adunir), do Diretório Central dos
Estudantes (DCE-Unir) e do jornal “A Nova Democracia”.
Trata,
leitor, o ato aí anunciado, de uma questão antiga,
muito antiga, mas que não pára de se reproduzir
enquanto persistirem os sistemas sociais organizados com base
na perversa exploração dos mais pobres pelos ricos
e poderosos. Sempre que os mais humildes se organizam para tentar
uma saída para a miséria em que vivem, os ricos
e poderosos tratam de massacrá-los impiedosamente, não
sem antes construir uma razão aparente para justificar
os genocídios que produzem. Basta, pois, um grupo de pobres
pretender ter um roçado onde plantar e colher para alimentar
a si e aos seus para ser caracterizado como um perigo a ser varrido
da face da terra.
Da
revolta dos escravos de Spartacus contra o Império Romano
às guerras dos príncipes alemães contra os
camponeses liderados pelo padre Munzer no século XVI, os
massacres que produziram rios de sangue têm todos uma similaridade:
os que terminaram dizimados foram, antes, caracterizados como
perigosos foras da lei. No Brasil a história não
tem sido diferente. Basta ver o Quilombo do Palmares, Canudos,
Contestado, Pedra Bonita e Caldeirão no passado remoto
e, mais recente, os massacres de Eldorado dos Carajás e
Corumbiara – este, aqui nas nossas barbas. As lutas de classes,
como se vê, não são um mero enunciado político
comunista, mas uma real dinâmica das sociedades humanas
desde a Antiguidade.
2
– CPT E IBAMA
“Rondônia
possui 85 focos de conflitos agrários”, estampou
ainda nesta quinta-feira (03) o jornal “O Estadão”
na manchete principal da sua 1ª Página, ao anunciar
a publicação de uma oportuna reportagem da jornalista
Emília Araújo na Página 12 da mesma edição.
Amparada em fontes como o padre Afonso Maria Chagas, que também
é advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT),
e o engenheiro Oswaldo Pitaluga, superintendente local do Ibama,
a jornalista revela um quadro nada menos do que desolador. De
acordo com o clérigo, em que importe o Estado possuir 9
milhões de hectares disponíveis para assentamentos
de reforma agrária, “o governo federal limitou-se
apenas a fazer algumas regularizações, acrescentando
que a administração Lula fez menos pelos sem-terras
do que a de Fernando Henrique Cardoso”.
Oswaldo
Pitaluga, por seu turno, “disse que a situação
no campo está praticamente insustentável, pois a
Zona 2, onde a lei permite haver assentamentos, está quase
toda ocupada”. Segundo ele, “se não houver
mudanças na política agrária, geração
de emprego e renda para a população, será
complicado”, observando “que as pessoas procuram pelas
invasões de terras por falta de opção”.
Conforme
anotou Emília Araújo, “o padre Afonso citou
que parte das vítimas do massacre de Corumbiara hoje integra
a Liga dos Camponeses Pobres (LCP). Isto porque, segundo o clérigo,
já se passaram 12 anos e eles não foram indenizados
até hoje, apesar de haver um processo na Comissão
Interamericana de Direitos Humanos”. Conforme o padre Afonso,
“as vítimas de Corumbiara estão na LCP na
tentativa de conseguirem um pedaço de terra, afirmando
que é errôneo classificá-los de guerrilheiros.
É apenas mais um dos diversos conflitos agrários
que estão surgindo a cada dia no Estado”.
E,
no entanto, a revista “IstoÉ” de 26/03 estampou
em uma de suas reportagens de capa, matéria em que acusa
a LCP de ser um “grupo armado”, “organização
guerrilheira”, “responsável por homicídios”,
“desmatamento ilegal” e o escambau.
3
– VOZES LEGÍTIMAS
A
propósito da publicação, com a palavra o
grupo responsável pelo ato aqui anunciado, nos excertos
que se seguem do texto do convite que fez circular durante a semana:
“A acusação de ‘guerrilha’ não
nos surpreende. Pouco antes do chamado Massacre de Corumbiara,
em 1995, a grande imprensa de Rondônia também acusava
os camponeses que ocuparam a fazenda Santa Elina de fazerem ‘treinamento
de guerrilha’ e o resultado todos sabem qual foi: homens,
mulheres e até crianças assassinadas pela polícia
e pelos jagunços da fazenda. É esse o motivo da
matéria da ‘IstoÉ’, reproduzida aqui
em Rondônia pelo jornal dos latifundiários Folha
de Rondônia, ou seja, preparar o clima para um massacre
em Jacinópolis, sonho dos latifundiários de Rondônia.
“A
matéria de ‘IstoÉ’ quer legitimar a
ação de milícias armadas de jagunços
que aterrorizam os camponeses da região sob o discurso
de ‘proteger a propriedade’, sendo esta passível
de investigação para se saber como esses latifúndios
– com a conivência do Incra – foram sendo formados
em diversas regiões do Estado de Rondônia. Ironicamente,
os latifúndios ocupados, em muitos casos, agora recebem
‘atenção’ da Polícia Ambiental
sob a alegação de serem ‘áreas de proteção
ambiental’.
A
revista 'IstoÉ’ chega ao cúmulo de caluniar
os camponeses, como é o caso de Ruço, de suposto
assassino, sendo que Ruço foi inocentado em Abril de 2007
por um Júri Popular na cidade de Jaru. Wenderson dos Santos,
o Ruço, recebeu apoio de inúmeras personalidades
como o jurista Nilo Batista, o arquiteto Oscar Niemayer, o Presidente
da SBPC, professor Ennio Candotti, e o próprio Conselho
Superior da Universidade Federal de Rondônia – UNIR.
Já
Basta! É preciso impedir mais um crime contra famílias
camponesas que apenas querem o direito de sustentar seus filhos!
Responsabilizamos desde já os governos Estadual e Federal
por qualquer ataque que vier a acontecer à população
de Jacinópolis e pelas mortes de inocentes que porventura
venham a ocorrer.” Ao ato, pois!
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