Reproduzimos
carta de agradecimentos feita pelo camponês José
Ricardo e nota produzida pela Liga dos Camponeses Pobres do
Nordeste
Carta de Agradecimento aos democratas
de Pernambuco, do Nordeste e de todo o Brasil
“No dia 5 de fevereiro de 2005 iniciou um calvário
em minha vida, onde houve uma investida desastrosas de policiais
que queriam me matar. Policiais que fazem trabalho de jagunços,
e que tem a tarefa de defender o latifúndio. A partir deste
episódio eu vim amargando dentro da prisão durante
3 anos e 1 mês.
Durante este tempo iniciou-se uma batalha dos companheiros do
MEPR e da LCP para conseguir minha liberdade. Depois de muito
sofrimento obtivemos sucesso e no dia 3 de abril de 2008 foi concedido
que eu esperasse o julgamento em liberdade.
Diante disso venho através dessa carta agradecer a todos
que sempre acreditaram em minha inocência. A prova disto
está nos assentamentos e acampamentos que mesmo sofrendo
inúmeras perseguições confiaram em mim e
me receberam de braços abertos.”
José Ricardo Rodrigues
O cancelamento do julgamento de Zé Ricardo
O movimento popular e democrático, o povo honesto e trabalhador
de Quipapá aguardavam ansiosos pelo julgamento de José
Ricardo Rodrigues, importante liderança camponesa da Mata
Sul Pernambucana. No dia 28 de março, o promotor municipal
cancelou o júri popular que estava marcado para o dia 02
de abril. Ele pediu o “desaforamento” do julgamento,
isto é que o júri se realizasse no Recife e não
em Quipapá.
O promotor aceitou o pedido do 10º Batalhão da PM,
que numa carta assinada por seu comandante, baseada em informações
inventadas e falsas, pedia o desaforamento do júri. O “relatório”
da PM dava conta que o julgamento não poderia ocorrer em
Quipapá, pois esta cidade não oferecia segurança
para realização do júri. Sem prova alguma
o comandante do 10º BPM afirmou que no dia do júri
manifestantes iriam saquear o comércio e invadiriam agências
bancárias.
Tudo mentira! O povo de Quipapá sabe muito bem que todas
as manifestações pela libertação de
Zé Ricardo e dos 9 companheiros do Assentamento Bananeiras
ocorreram de forma ordeira e pacífica. No dia 5 de março,
o próprio Promotor recebeu uma Comissão de 15 companheiros
e familiares que juntos com mais 200 pessoas realizaram uma bonita
passeata no centro da cidade e uma Audiência Pública
na Câmara de Vereadores.
Apesar de toda a demonstração de organização
por parte daqueles que organizaram a passeata, o promotor preferiu
dar ouvidos a boatos infundados e cancelou o julgamento. Os 3
advogados de José Ricardo já haviam se deslocado
de São Paulo quando foram informados do cancelamento do
júri. A família e os apoiadores de Ricardo gastaram
R$ 3 mil em passagens aéreas para um julgamento que hoje
não tem data para acontecer.
A Conquista da Liberdade!
Apesar da decisão errada de cancelar o julgamento, o promotor
teve, ao menos, a honestidade de pedir a liberdade provisória
de José Ricardo. Mesmo sendo inocente e réu primário
Ricardo estava preso há mais de 3 anos aguardando julgamento
e teria que esperar por tempo indeterminado pela definição
da nova data do júri. O juiz de Quipapá aceitou
o pedido de liberdade feito pelo Ministério Público.
No dia 03 de abril, Ricardo, finalmente, estava livre! Deixou
alegre e aliviado o presídio Aníbal Bruno no Recife.
Imediatamente após deixar a prisão, Ricardo viajou
para Água Preta onde encontrou-se com amigos e familiares.
Pôde, em fim, abraçar sua querida mãe que
não via há 3 anos, desde sua prisão. Encontrou
seu pai e sua irmã Ângela, que tanto batalharam por
sua libertação. Foi um momento de forte emoção
para todos.
No dia 04 de abril, José Ricardo se apresentou espontaneamente
ao Fórum de Quipapá onde assinou um termo se comprometendo
a comparecer em todas audiências de seu processo. Ninguém
mais do que ele está interessado na realização
deste júri para que a verdade prevaleça e sua absolvição
seja concedida. Mas é claro, este júri deve ser
imparcial e justo, Ricardo deve ser julgado por quem de fato compete:
o povo de Quipapá.
José Ricardo retornou, então, para sua casa no assentamento
Gulandir no município de Lagoa dos Gatos. Pôde rever
sua parcela, sua pequena criação e seu boi de 18
arrobas, muito bem cuidado por seus companheiros durante o período
em que esteve preso. Ricardo foi recebido com muita alegria por
seus vizinhos e companheiros de luta. Lágrimas rolaram
no rosto de senhores e senhoras de idade ao rever aquele companheiro
tão querido. Até as crianças correram para
abraçar o amigo das brincadeiras e das pegas de boi.
De muitas áreas em Quipapá, Jaqueira, Lagoas dos
Gatos, Catende, Belém de Maria, do litoral ao sertão,
surgiram convites para que Ricardo os visitasse. E Ricardo pôde
atender alguns destes convites. Esteve no Acampamento Riachão
em Lagoa dos Gatos onde os companheiros e companheiras comemoraram
com alegria o retorno desta liderança. Homens, mulheres
e jovens relataram os sofrimentos e dificuldades dos últimos
3 anos e acolheram de braços abertos o saudoso companheiro.
Por onde passou Ricardo foi recebido com felicidade pelos camponeses,
fato que revela sua liderança, honestidade e seu compromisso
inabalável com o povo. Ricardo, após sair da prisão,
poderia simplesmente cuidar de sua vida, mas preferiu se juntar
com o povo com o qual sempre lutou.
José Ricardo é uma liderança camponesa inconteste,
sua prisão foi política e injusta. No dia 03 de
abril a verdade começou a vencer a mentira. A liberdade
de Ricardo foi uma vitória dos democratas, justos e honestos
de Pernambuco e de todo o Brasil. Foram 3 anos de luta pela libertação
do companheiro, onde estudantes, sindicalistas, professores e
camponeses de todo o Brasil e até mesmo de outros países
moveram seus esforços por esta conquista.
Neste momento, nós do Comitê de Apoio aos Camponeses
de Quipapá, da Liga de Camponeses Pobres e claro em nome
do próprio José Ricardo manifestamos nossos mais
sinceros agradecimentos a todos que apoiaram esta campanha em
defesa dos direitos do povo. Agradecemos primeiramente o povo
de Quipapá que sempre recebeu com atenção
e critério todas nossas mensagens. Agradecemos em especial
aos estudantes do MEPR do Recife, ao Núcleo dos Advogados
do Povo, ao Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos, aos
sindicatos classistas de Minas Gerais, à Liga Operária,
ao movimento sindical de Alagoas, Pernambuco e Ceará, ao
gabinete do vereador Henrique Leite e a CUT – Alagoas. A
libertação do companheiro é uma vitória
contra a criminalização do movimento camponês
e da luta pela terra. Uma vitória da verdadeira democracia
e da verdadeira justiça.
Manifestamos uma vez mais que esta campanha só terá
fim com a liberdade definitiva de José Ricardo. Reiteramos
que estaremos atentos a qualquer violência cometida por
este Estado reacionário de burgueses e latifundiários
contra o povo brasileiro.