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Carta
Aberta
Recife, agosto de 2007
Ao
povo de Pernambuco
Aos camponeses, trabalhadores, intelectuais,
democratas e pessoas honestas de todo o Brasil.
Nosso estado, Pernambuco, segundo dados da CPT (Comissão
Pastoral da Terra) é o segundo no país em conflitos
agrários. O número de assassinatos de camponeses pobres
só é menor do que no Pará. Nossa história
é marcada por inúmeras violências do latifúndio
secular contra o campesinato; e pela saga dos trabalhadores na luta
por seu sagrado direito à terra.
Nos últimos anos, ao contrário das expectativas, a
violência contra os trabalhadores do campo segue aumentando.
Por um lado, a falta completa de recursos governamentais para a
reforma agrária e, por outro, a impunidade que protege os
latifundiários e seus pistoleiros. O resultado desta injustiça
é que "velhos coronéis", responsáveis
por incontáveis violências contra o povo, continuam
impunes enquanto centenas de camponeses inocentes amargam a prisão
Brasil à fora.
Um dos exemplos mais gritantes desta injustiça está
ocorrendo em nosso estado.
Há mais de dois anos 10 camponeses pobres, moradores do antigo
Engenho Bananeiras, hoje um assentamento, foram presos. Embora todos
sejam réus primários, por dois anos não lhes
foi concedido o direito de responder o processo em liberdade, direito
assegurado pela Constituição Federal. Apenas em maio
deste ano, após uma série de pressões dos familiares
e amigos, manifestações e protestos organizados em
sua defesa, oito deles foram soltos e aguardarão julgamento
em liberdade. Outro camponês, mesmo tendo conseguido o direito
de ser solto, permanece preso no hospital psiquiátrico de
Itamaracá. Ele foi transferido para lá devido à
doença mental adquirida em função das terríveis
circunstâncias de sua injusta prisão. Os 10 camponeses
são comprovadamente inocentes, mas devido a uma aberração
jurídica permaneceram presos por tanto tempo. Estes nove,
se fossem condenados, pelos crimes pelos quais são acusados,
já teriam cumprido a pena. Um dos camponeses, José
Ricardo Rodrigues, permanece preso sem o direito ao hábeas
corpus.
Toda esta história começou na cidade de Quipapá,
na mata sul, onde se localiza o antigo Engenho Bananeiras. Neste
engenho falido, 40 famílias, após cinco anos passando
por toda sorte de dificuldades e privações, vivendo
em barracos de lona, conquistaram seu pedaço de chão.
Foi uma grande vitória, porém muito ainda tinha que
ser feito e essas famílias logo se puseram a desbravar e
fazer produzir uma terra que até então estava completamente
ociosa. Em três anos produziam milho, feijão, fava,
laranja, criavam gado e ovelhas. Haviam feito progredir o Assentamento
e também a região, já que passaram a dar grande
contribuição para desenvolvimento do comércio
da cidade.
Muitas dificuldades ainda existiam, mas a disposição
para o trabalho e espírito de união fazia com que
os camponeses do Engenho Bananeiras permanecessem confiantes na
perspectiva da nova realidade que já estavam construindo.
Com seus próprios esforços reconstruíram a
rede de eletricidade e depois de muita pressão conseguiram
a regularização junto à Celpe. Junto à
prefeitura obtiveram a construção de estradas de acesso
aos lotes. Hoje, num local que antes estava isolado, possuem até
um telefone.
Diante dessas conquistas dos camponeses pobres de Quipapá
e do significado de seu exemplo, o latifúndio, novamente,
voltou a perseguir os camponeses através da truculenta ação
do Estado.
No dia 5 de fevereiro de 2005, o Assentamento foi invadido por três
homens que trajavam bermudas, estavam sem camisas e que não
se identificaram, num carro também sem identificação
e sem placa perseguindo o camponês José Ricardo Rodrigues,
que adentrou o Assentamento gritando por socorro.
Em atendimento ao pedido do companheiro os camponeses saíram
de suas casas e foram em sua defesa. Ao se aproximarem do carro
um dos homens disparou uma pistola acertando a cabeça de
um camponês, que sobreviveu e é um dos que se encontra
preso. Assim se iniciou o confronto no qual um dos homens, até
então não identificado, veio a falecer. Um segundo
homem foi rendido e o outro conseguiu fugir.
No carro foram encontrados armamentos pesados (fuzis, pistolas e
metralhadoras) além de paus, cordas, alicates e um galão
de gasolina. Somente após a morte de um indivíduo
é que o homem rendido se identificou como policial. Uma operação
muito obscura, sem justificativa plausível. Assemelhou mais
a uma tocaia do que uma operação policial. Afinal
porque policiais em uma suposta blitz, portariam fuzis, metralhadoras,
cordas e gasolina?
Desde então um clima de terror foi montado em cima do alarde
feito a respeito da morte do policial e de forma arbitrária
foram executadas as prisões dos dez camponeses: José
Ricardo Rodrigues, José Wellington Souza Filho, José
Fábio da Silva, José Luíz Alexandre, Manoel
Alves da Silva, Adeílson Ferreira, José Fagne da Silva,
José Laércio Bispo, Antônio Pedro da Silva e
José Pereira Guerra.
Apesar de serem todos réus primários, a juíza
Aline Cardoso dos Santos não concedeu a eles o direto de
responder o processo em liberdade. José Ricardo Rodrigues
foi transferido ilegalmente, pois ainda não foi condenado,
para o presídio Aníbal Bruno, no Recife, sob a alegação
de se tratar de um preso de alta periculosidade. Enquanto isso,
um político pernambucano conhecido, cuja propriedade foi
flagrada explorando trabalho escravo está solto sob a justificativa
de que ele não sabia de nada. A promotoria pede a condenação
de José Ricardo por homicídio triplamente qualificado,
embora ele nem estivesse no local na hora da morte do policial.
Os demais camponeses permaneceram no presídio Doutor Rorenildo
da Rocha, em Palmares, por mais de dois anos. Alguns deles sequer
sabem ao certo o conteúdo das acusações que
pesam contra si.
Os moradores do Assentamento Bananeiras são homens e mulheres
honrados, trabalhadores e honestos. Os fatos comprovam que na verdade
estão sendo acusados e foram mantidos presos pelo fato de
lutarem pela terra.
Estes 10 camponeses são os responsáveis pela sobrevivência
de suas famílias. A maioria deles possui esposa e filhos.
São trabalhadores que têm de 20 a 45 anos. Suas esposas
e crianças passaram por muitos sofrimentos e a família
de José Ricardo Rodrigues ainda aguarda ansiosa por sua liberdade.
O Assentamento Bananeiras possui 40 lotes, com 10 pais de famílias
aprisionados por mais de dois anos todos passaram por muitas dificuldades.
Foram duas safras que estes camponeses ficaram sem plantar, o que
significou uma tragédia para as famílias, que vieram
sobrevivendo graças à solidariedade dos companheiros
de luta em todo este período.
O que acontecerá? Estes camponeses serão condenados
por crimes que não cometeram? E o camponês José
Ricardo Rodrigues passará mais quanto tempo dentro da prisão
sem poder plantar? Não podemos aceitar esta injustiça.
Em nome de suas esposas e filhos apelamos por justiça. Nos
dirigimos aos pernambucanos, representando uma importante parcela
dos democratas brasileiros, com o objetivo de manifestar apoio a
estes camponeses e com esperança de justiça. Esperamos
que a verdade seja resgatada. Esperamos que estes camponeses tenham
direito, no mínimo, de um julgamento justo, de que seja assegurado
a todos o direito de responder o processo em liberdade, amenizando
o sofrimento de suas famílias. Esperamos que mais uma vez
não seja negado, sem justificação plausível,
o pedido de hábeas corpus a José Ricardo. Enfim, confiamos
que com o apoio da população pernambucana, de históricas
tradições democráticas, a verdade prevalecerá
sobre o poder econômico e a opressão.
Comitê
em defesa dos camponeses de Quipapá
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