A Revolta popular no Entorno de Brasília

 

O Entorno de Brasília é uma das regiões mais conflituosas do Brasil. É composto por cerca de 20 cidades, sendo a maior cidade Luziânia. O crescimento urbano é um dos maiores do mundo, que ocorre devido à migração de populações rurais espulças pela concentração fundiária, pela ação do latifúndio monocultor. Quando essas famílias chegam à cidade grande são obrigadas a morar nos locais mais longínquos, se tornando também vítimas da especulação imobiliária tão presente nos dias de hoje.
Essas são cidades que cresceram sem a mínima condição de dignidade para a sua população. Como está entre o Distrito Federal e Goiás, nenhum dos governos assume a responsabilidade pela região. A única política social do Estado para a região é a repressão. Por isso, a Força Nacional de Segurança está a mais de um ano na região do Entorno. Existem problemas do abastecimento de água, com secas intermináveis, falta de asfalto, hospitais e etc.

Outro grave problema enfrentado pela população do Entorno é o do transporte público. São linhas sucateadas, com lotação extrema, passagens caras e nenhum conforto. Por exemplo, um trabalhador deve pagar entre R$ 2,95 à R$ 4,25 por passagem, ou seja, o passageiro pode ter um gasto diário de R$ 8,50 por dia, R$ 51,00 por semana e R$ 204,00 por mês. Então, a política de valorização do salário mínimo pregada pelo Governo Lula é uma mera ilusão para a população do Entorno, já que quase metade do salário fica só em transporte público.
Para piorar, os rodoviários do Entorno são uma das categorias mais exploradas do país. Esses trabalhadores são submetidos a péssimas condições de trabalhos, já que os ônibus velhos, que não são pensados para melhorar a condição de trabalho do funcionário, levam a inúmeros problemas de saúde para os trabalhadores. Os patrões, de forma absurda, ainda obrigam os rodoviários a cobrirem as despesas com o reparo dos ônibus, além de descontarem nos salários desses trabalhadores, os assaltos, que são constantes.
Por isso, no dia 11, os rodoviários da cidade de Águas Lindas iniciaram uma paralisação, que desencadeou em uma combativa greve. As suas reivindicações eram desde, o aumento de salários à melhoria no atendimento à população, com a exigência de uma maior oferta ônibus. No dia 14, os rodoviários da cidade de Santo Antônio do Descoberto também aderiram à greve e pararam todas as linhas da cidade.
Essa greve dos rodoviários levou muitos moradores a perderem o horário do serviço. Mesmo pagando uma absurda passagem, não contam com um serviço descente. Isso levou a uma explosão espontânea da população de Águas Lindas. Quando chegou a notícia da paralisação, a população se revoltou, organizando barricadas por toda a cidade e fechando a rodovia Br 070, para pressionar o Estado para uma solução de seus problemas.
A Polícia Militar foi convocada para dissipar os protestos populares e encontrou forte resistência popular, com pedras, paus e outros. A tropa de choque foi convocada para intervir na cidade. O maior confronto foi realizado em frente da garagem do Grupo Amaral, a maior empresa de ônibus a operar no Entorno, onde cerca de 3000 pessoas tentaram invadir o local. A rebelião só foi controlada depois de seis horas de confronto e não pela ação repressiva da PM e sim através de um acordo do prefeito com a população. O prefeito foi a maior das barricadas e clamou para a população parar com o movimento, prometendo negociações com o Governo do Distrito Federal para resolver o problema do transporte em Águas Lindas, através do fretamento de ônibus pela prefeitura até os limites do Distrito Federal, com o intuito de reduzir o valor das passagens. Ao final do confronto, o resultado final foi de um policial ferido, quatro ônibus incendiados e engarrafamentos quilométricos.
O governo não procura resolver o problema da população e nem dos rodoviários, mas mantêm os interesses dos empresários intocados. Por isso, essa revolta da população e dos rodoviários do Entorno é apenas um sintoma de todo o “mal estar” da região, que não pode ser resolvido apenas por medidas paleativas e demagógicas. O Entorno é um dos locais de maiores tensões e contradições sociais no Brasil. As explosões de massas são inevitáveis diante de uma situação de miséria e exploração até o extremo limite. Esse fato demonstra como os trabalhadores responderão ao aumento da exploração e a deterioração de suas condições de vida. A situação de caos do Entorno não é só um problema específico dessa região. Esse fato nos demonstra que essa é a situação política, dos subterrâneos da luta de classes, está radicalizando cada vez mais em nosso país. O povo não está aceitando ser dominado calado e exige soluções.