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As cinco
dificuldades para escrever a verdade
Bertolt Brecht
Hoje, o escritor que deseje
combater a mentira e a ignorância tem de lutar, pelo menos, contra
cinco dificuldades. É-lhe necessária a coragem de dizer
a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufocá-la;
a inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte a ocultam;
a arte de a tornar manejável como uma arma; o discernimento suficiente
para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz;
finalmente, precisa de ter habilidade para difundir entre eles. Estas
dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo;
aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas;
e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não
estão livres da sua acção.
1- A CORAGEM DE DIZER
A VERDADE
É evidente que o
escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada
escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se
diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim
como resistir à tentação do lucro que advém
de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar
seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por
vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre
os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de
celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema
opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e
nobres temas estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando
o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente,
precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos
e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores
e o seu alojamento.
Quando os camponeses são
cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor
que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam
o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os altifalantes
espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído,
é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê? Quando
se fala de raças nobres e de raças inferiores, é
corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não
produzem odiosas deformidades. É igualmente necessária coragem
para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos
que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas
culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça.
Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos,
são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi
esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude
ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não
é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita
a humidade da chuva. É necessária coragem para dizer que
os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes
por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com
a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo
e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à
mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque
houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra
coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em
algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a
única coisa que era preciso dizer.
Não se carece de
muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção
do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde
a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito. Muitos
simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre
eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos
de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações,
à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas.
Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem,
apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre
têm partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem.
Se nela só há aridez, números e factos, se para a
encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então
essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos
nada de exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento
exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é
não possuírem a mínima noção dela.
2- A INTELIGÊNCIA
DE RECONHECER A VERDADE
Como é difícil
dizer a verdade, já que por toda a parte a sufocam, dizê-la
ou não parece à maioria uma simples questão de honestidade.
Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem.
Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não
se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade.
Em primeiro lugar, já
não é fácil descobrir qual verdade merece ser dita.
Hoje, por exemplo, as grandes nações civilizadas vão
soçobrando uma após outra na pior das barbáries diante
dos olhos pasmados do universo.
Acresce ainda o facto de
todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais horríveis,
pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra exterior que
só deixará um montão de escombros no sitio onde outrora
havia o nosso continente. Esta é uma verdade que não admite
dúvidas, mas é claro que existem outras verdades. Por exemplo:
não é falso que as cadeiras sirvam para a gente se sentar
e que a chuva caia de cima para baixo. Muitos poetas escrevem verdades
deste género. Assemelham-se a pintores que esboçassem naturezas
mortas a bordo dum navio em risco de naufragar. A primeira dificuldade
de que falamos não existe para eles, e contudo têm a consciência
tranquila. "Esgalham" o quadro num desprezo soberano pelos poderosos,
mas também sem se deixarem impressionar pelos gritos das vítimas.
O absurdo do seu comportamento engendra neles um "profundo"
pessimismo que se vende bem; os outros é que têm motivos
para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem.
Já nem sequer é fácil reconhecer que as suas verdades
dizem respeito ao destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades
soam normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com
coisas essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar
um ar de importância aos temas de que trata.
Só olhando os quadros
de muito perto é que podemos discernir a simplicidade do que dizem:
"Uma cadeira é uma cadeira" e "Ninguém pode
impedir a chuva de cair de cima para baixo". As pessoas não
encontram ali a verdade que merece a pena ser dita.
Alguns consagram-se verdadeiramente
às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou á pobreza,
e no entanto não conseguem encontrar a verdade. Faltam-lhe conhecimentos.
As velhas superstições não os largam, assim como
os preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma
forma bela. Acham o mundo complicado em demasia, não conhecem os
dados nem distinguem as relações. A honestidade não
basta; são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos
que se podem aprender. Todos os que escrevem sobre as complicações
desta época e sobre as transformações que nela ocorrem
necessitam de conhecer a dialéctica materialista, a economia e
a história. Estes conhecimentos podem adquirir-se nos livros e
através da aprendizagem prática, por mínima que seja
a vontade necessária. Muitas verdades podem ser encontradas com
a ajuda de meios bastante mais simples, através de fragmentos de
verdades ou dos dados que conduzem à sua descoberta. Quando se
quer procurar, é conveniente ter-se um método, mas também
se pode encontrar sem método e até sem procura. Contudo,
através dos diversos modos como o acaso se exprime, não
se pode esperar a representação da verdade que permite aos
homens saber como devem agir. As pessoas que só se empenham em
anotar os factos insignificantes são incapazes de tornar manejáveis
as coisas deste mundo. O objectivo da verdade é uno e indivisível.
As pessoas que apenas são capazes de dizer generalidades sobre
a verdade não estão à altura dessa obrigação.
Se alguém está
pronto a dizer a verdade e é capaz de a reconhecer, ainda tem de
vencer três dificuldades.
3-A ARTE DE TORNAR A
VERDADE MANEJÁVEL COMO UMA ARMA
O que torna imperiosa a
necessidade de dizer a verdade são as consequências que isso
implica no que diz respeito à conduta prática. Como exemplo
de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar consequências
falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos
países reina um estado de coisas nefasto, resultante da barbárie.
Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie
que alagou certos países com a violência de um fenómeno
natural.
Os que assim pensam, entendem
o fascismo como um novo movimento, uma terceira força justaposta
ao capitalismo e ao socialismo (e que os domina). Para quem partilha esta
opinião, não só o movimento socialista, mas também
o capitalismo teriam podido, se não fosse o fascismo, continuar
a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirmação
fascista, de uma capitulação perante o fascismo. O fascismo
é uma fase histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência,
algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a
existência do capitalismo assume a forma do fascismo, e não
é possível combater o fascismo senão enquanto capitalismo,
senão enquanto forma mais nua, mais cínica, mais opressora
e mais mentirosa do capitalismo.
Como se poderá dizer
a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se
abstêm de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual
será o alcance prático dessa verdade?
Aqueles que estão
contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre
a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas
que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem
que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue.
Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes
de servir a carne. Não são contra as relações
de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a
barbárie.
As recriminações
contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia episódica,
enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não são
possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do
raro privilégio de manter relações de propriedade
capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia
ainda lhes presta os serviços que noutras partes do mundo só
podem ser prestados mediante o recurso à violência, quer
dizer, aí a democracia chega para garantir a propriedade privada
dos meios de produção. O monopólio das fábricas,
das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições
bárbaras; digamos que em alguns sítios a democracia torna
essas condições menos visíveis. A barbárie
torna-se visível logo que o monopólio já só
pode encontrar protecção na violência nua.
Certas nações
que conseguem preservar os monopólios bárbaros sem renunciar
às garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte,
a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os hóspedes cujos
discursos procuram desculpar o seu país natal de ter renunciado
a semelhantes confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras
vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles
que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha,
apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa época,
sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será
exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis,
já que a conclusão do seu blá-blá-blá
aponta para a destruição desse pais inteiro e de todos os
seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata, não escolhe
os culpados).
O homem frívolo,
que não conhece a verdade, exprime-se através de generalidades,
em termos nobres e imprecisos. Encanta-o perorar sobre "os"
alemães ou lançar-se em grandes tiradas sobre "o"
Mal, mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem frívolo
fala, ficamos embaraçados, sem saber que fazer de semelhantes ditames.
Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alemão? E
lá por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta
espécie as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus
autores, a barbárie vem da barbárie e desaparece graças
à educação moral que vem da educação.
Que miséria a destas generalidades, que não visam qualquer
aplicação pratica e, no fundo, não se dirigem a ninguém.
Não nos admiremos
que se digam de esquerda, "mas" democratas, os que só
conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades.
A "esquerda democrática" é outra destas generalidades-álibís
onde correm a acoitar-se as pessoas inconsequentes, isto é, os
incapazes de viver até as últimas consequências as
verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm. Reclamar-se
alguém da "esquerda democrática" significa, em
termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar
ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.
Não é a mim,
fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me vão apresentar
o fascismo como uma espécie de força motriz natural impossível
de dominar. A escuridade dessas descrições esconde as verdadeiras
forças que produzem as catástrofes. Um pouco de luz, e logo
se vê que são homens a causa das catástrofes. Pois
é, amigos: vivemos num tempo em que o homem é o destino
do homem.
O fascismo não é
uma calamidade natural, que se possa compreender a partir da "natureza"
humana. Mas mesmo confrontados com catástrofes naturais, há
um modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela para as
suas qualidades combativas.
O cronista de grandes catástrofes
como o fascismo e a guerra (que não são catástrofes
naturais) deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades
que os que possuem os meios de produção infligem às
massas imensas dos que trabalham e não os possuem.
Se se pretende dizer eficazmente
a verdade sobre um mau estado de coisas, é preciso dizê-la
de maneira que permita reconhecer as suas causas evitáveis. Uma
vez reconhecidas as causas evitáveis, o mau estado de coisas pode
ser combatido.
4- DISCERNIMENTO SUFICIENTE
PARA ESCOLHER OS QUE TORNARÃO A VERDADE EFICAZ
Tirando ao escritor a preocupação
pelo destino dos seus textos, as usanças seculares do comércio
da coisa escrita no mercado das opiniões deram-lhe a impressão
de que a sua missão terminava logo que o intermediário,
cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos outros a obra acabada.
O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele
falava e quem podia pagar ouvia-o. Nem todos ouviam as suas palavras,
e os que as ouviam não estavam dispostos a ouvir tudo o que se
lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão, mas mesmo assim
ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a acentuar
que "escrever a alguém" tornou-se pura e simplesmente
"escrever". Ora não se pode escrever a verdade e basta:
é absolutamente necessário escrevê-la a "alguém"
que possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade é um processo
comum aos que lêem e aos que escrevem. Para dizer boas coisas, é
preciso ouvir bem e ouvir boas coisas. A verdade deve ser pesada por quem
a diz e por quem a ouve. E para nós que escrevemos, é essencial
saber a quem a dizemos e quem no-la diz.
Devemos dizer a verdade
sobre um mau estado de coisas àqueles que o consideram o pior estado
de coisas, e é desses que devemos aprender a verdade. Devemos não
só dirigir-nos às pessoas que têm uma certa opinião,
mas também aos que ainda a não têm e deviam tê-la,
ditada pela sua própria situação. Os nossos auditores
transformam-se continuamente! Até se pode falar com os próprios
carrascos quando o prémio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente
ou o perigo de estar com os assassinos se torna muito grande. Os camponeses
da Baviera não costumam querer nada com revoluções,
mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso, não
arranjam trabalho nas quintas, tem sido possível ganhá-los
para a revolução.
Para quem escreve, é
importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave, lamentoso,
de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem,
estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais
miserável. Em nada o anima a cantilena dos que, não sendo
seus inimigos, não são certamente seus companheiros de luta.
A verdade é guerreira, não combate só a mentira,
mas certos homens bem determinados que a propagam.
5- HABILIDADE PARA DIFUNDIR
A VERDADE
Muitos, orgulhosos de ter
a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura
fatigados com o esforço necessário para lhe dar uma forma
manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses
defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário
o uso de manhas e estratagemas para a difundir. Frequentemente, é
assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi
necessário recorrer a "truques" para espalhar a verdade,
quando os poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la.
Confúcio falsificou um velho calendário histórico
nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia:
"o senhor de Kun condenou à morte o filósofo Wan por
ter dito frito e cozido", Confúcio substituía "condenou
à morte" por "assassinou". Quando o texto dizia
que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia "foi
executado". Com este processo, Confúcio abriu caminho a uma
nova concepção da história.
Na nossa época,
aquele que em vez de "povo", diz "população",
e em lugar de terra", fala de "latifúndio", evita
já muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha.
A palavra "povo" exprime uma certa unidade e sugere interesses
comuns; a "população" de um território
tem interesses diferentes e opostos. Da mesma forma, aquele que fala em
"terra" e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos
favorece as mentiras dos poderosos, porque não fala do preço
do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos
ricaços das cidades e não aos dos camponeses que se matam
a tornar fértil o "paraíso". "Latifúndio"
é a expressão justa: torna a aldrabice menos fácil.
Nos sítios onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez
de "disciplina", a palavra "obediência", já
que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível, e caracteriza-se
portanto por algo de mais nobre que a obediência. Do mesmo modo,
"dignidade humana" vale mais do que "honra": com a
primeira expressão o indivíduo não desaparece tão
facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o género
de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo,
e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem "honrarias"
pelos famélicos que os engordam.
Ao substituir avaliações
inexactas de acontecimentos nacionais por notações exactas,
o método de Confúcio ainda hoje é aplicável.
Lénine, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar,
quis descrever a exploração e a opressão da ilha
Sakalina pela burguesia russa. Substituiu "Rússia" por
"Japão" e "Sakalina" por "Coreia".
Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores
os métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não
foi proibida, porque o Japão era inimigo da Rússia. Muitas
coisas que não podem ser ditas na Alemanha a propósito da
Alemanha, podem sê-lo a propósito da Áustria. Há
muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.
Voltaire combateu a fé
da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela
de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem dúvida
foram necessários para Joana d'Arc permanecer virgem no exército,
na Corte e no meio dos frades.
Pela elegância do
seu estilo e a descrição de aventuras galantes inspiradas
na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma
religião que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta.
Mais e melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir
por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire
contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difusão
dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a polícia que protegia
os seus prazeres. E o grande Lucrécio sublinha expressamente que,
para propagar o ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos
seus versos.
Não há dúvida
de que um alto nível literário pode servir de salvo-conduto
à expressão de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta
suspeitas. Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente.
É o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do
romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos, a
descrição dos males da sociedade. O grande Shakespeare baixou
o seu nível por considerações bem mais fracas, quando
tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com
que a mãe de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre
Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projecto,
não por causa de razões sólidas ou de uma emoção
profunda, mas por uma certa fraqueza de carácter que o entregava
aos seus velhos hábitos. Encontramos igualmente em Shakespeare
um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de Marco
António perante o corpo de César, quando repete com insistência
que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo
ao mesmo tempo o seu acto, e a descrição do acto provoca
mais impressão que a do autor.
Jonathan Swift propôs
numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda:
meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los como carniça
no talho. Através de minuciosos cálculos, provava que se
podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada.
Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar
abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos.
O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano
que Swift, sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências
decorrentes de certas concepções.
São consideradas
baixas as actividades úteis aos que são mantidos no fundo
da escala: a preocupação constante pela satisfação
de necessidades; o desdém pelas honrarias com que procuram engodar
os que defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança
no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a
falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador;
o protesto contra a obrigação de ter um comportamento de
idiotas; a indiferença para com a família, quando de nada
serve a gente interessar-se por ela. Os esfomeados são acusados
de gulodice; os que não têm nada a defender, de cobardia;
os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria força;
os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de preguiça,
etc.
Numa época como
a nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria,
têm de evitar que nessa miséria se pense no governo, e por
isso estão sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas
do mal, vai parar à prisão antes que a sua busca atinja
o governo. Mas é sempre possível opormo-nos à conversa
fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias,
que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na
descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado
conforme à verdade, quando se incorporam à natureza as coisas
criadas pelo homem.
RECAPITULAÇÃO
A grande verdade da nossa
época (só seu conhecimento em nada nos faz avançar,
mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade importante)
é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele
se mantêm pela violência determinadas relações
de propriedade dos meios de produção. De que serve escrever
frases corajosas mostrando que é bárbaro o estado de coisas
em que nos afundamos (o que é verdade), se a razão de termos
caído nesse estado não se descortina com clareza? É
nossa obrigação dizer que, se se tortura, é para
manter as relações de propriedade. Claro que ao dizermos
isso perdemos muitos amigos; aqueles que são contra a tortura porque
julgam ser possível manter sem ela as relações de
propriedade (o que é falso).
Devemos dizer a verdade
sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país
a fim de tornar possível a acção que as fará
desaparecer, isto é, que transformará as relações
de propriedade.
Devemos dizê-la aos
que mais sofrem com as relações de propriedade e estão
mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários
e aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários
dos meios de produção, embora associados aos lucros e benefícios
da exploração de quem produz. E, é claro, devemos
proceder com astúcia.
Devemos resolver em conjunto,
e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, já que não podemos
procurar a verdade sobre condições bárbaras sem pensar
nos que sofrem essas condições e estão dispostos
a utilizar esse conhecimento. Além disso, temos de pensar em apresentar-lhes
a verdade sob uma forma susceptível de se transformar numa arma
nas suas mãos, e simultaneamente com a astúcia suficiente
para que a operação não seja descoberta e impedida
pelo inimigo.
São estas as virtudes
exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.
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