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Mais
de 30 milhões repudiam
a
farsa das eleições
 
Apesar de toda pressão
para o povo votar e do voto é obrigatório, mais de 30 milhões
(30.074.715) de brasileiros não foram votar, anularam ou votaram
em branco – nesse número não estão computados
os que deixaram de votar há mais de 3 eleições e
que tiveram seus documentos eleitorais cancelados.
O circo eleitoral contou
com o aval de grupos pseudo-comunistas e trotskistas que apoiaram o PT
ou apresentaram candidatos próprios a presidente no primeiro turno,
como a da senadora Heloisa Helena, expulsa do PT, agora no recém
criado PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade), que obteve 6.575.393
votos. E ainda pelo senador Cristóvão Buarque, ex-ministro
da educação de Lula, agora no PDT (Partido Democrático
Trabalhista), que ficou com 2.538.844.
O circo eleitoral concluiu
as suas encenações no final do mês de outubro com
a reeleição do oportunista Luiz Inácio Lula da Silva,
do PT (Partido dos Trabalhadores) para continuar no cargo de gerente do
podre e genocida Estado brasileiro. De um total de 125.912.935 votos apurados,
o oportunista Luiz Inácio obteve 58.295.042 (39% do total de eleitores),
enquanto seu oponente, Geraldo Alckmin, do PSDB (Partido da Social Democracia
Brasileira) ficou com 37.543.178 votos.
O que mais marcou todo este período
foi o grande desinteresse da população com as eleições.
Uma colossal campanha publicitária foi executada na mídia,
martelando sobre a “necessidade do povo votar” e da “importância”
e do “poder” do voto. Mas é marcante o repúdio
à farsa eleitoral e surgiram muitas manifestações
espontâneas pelo voto nulo, enquanto organizações
populares, como a Liga Operária, defenderam abertamente a posição
de não votar, entendendo o processo eleitoral, nas condições
atuais e específicas do Brasil, como uma farsa. E assim, mesmo
sendo o voto, obrigatório, um grande contingente de eleitores recusou-se
a legitimar este 'jogo de cartas marcadas': os votos brancos, nulos e
as abstenções somaram mais de 20% do total dos brasileiros
em condições de voto, ou seja, mais de 30 milhões.
Os monopólios de
imprensa e os partidos oportunistas, em uníssono, apressaram-se
em inferir que o Brasil estava polarizado para a decisão final,
e que a rejeição ao processo foi inexpressiva. Clara tentativa
de negar as evidências. Longe de ter significado "um fortalecimento
da democracia", ou ter sido um "exercício de cidadania"
(como insistiu em remarcar a propaganda oficial), as eleições
no Brasil serviram, mais uma vez, para revelar o fracasso dos partidos
parlamentares, assim como para mostrar a total responsabilidade deles
com a manutenção do povo na miséria e do país
no atraso, sob domínio estrangeiro.
Oportunista Lula
tira a máscara após as eleições
Menos de 24 horas após
as eleições, o oportunista Lula tirou a máscara usada
durante o período eleitoral e anunciou que o arrocho fiscal vai
continuar e que não vai mexer na meta determinada pelo FMI de superávit
primário de 4,25% do PIB.
O superávit primário
é a economia que o FMI determina o governo fazer para financiar
a rolagem da dívida pública. Recursos das áreas públicas
de educação, saúde, saneamento, habitação,
etc., são drenadas para fazer caixa para o pagamento prioritário
de juros aos banqueiros. O povo sofre com o péssimo atendimento
nos hospitais públicos, são inúmeros casos de pessoas
morrerem nas filas por falta de atendimento; as escolas públicas
também estão sucateadas, as estradas esburacadas, não
existe política de habitação popular, etc.
Demagogicamente, Lula
propagandeia um selo “desenvolvimentista” em seu segundo mandato,
mas ressalva que tudo será feito “com responsabilidade”,
sem pôr em risco as “conquistas” do período Palocci
(ex-ministro da economia derrubado após escândalos de corrupção).
Daí ter afirmado em seu primeiro pronunciamento público
depois da eleição que vai manter uma "política
fiscal dura".
A relação dívida pública/PIB hoje é
da ordem de 50%. Os serviços (juros e amortizações)
da dívida interna não param de crescer e continuam consumindo
grande parte dos recursos orçamentários. Em 2005, nem mesmo
o superávit primário (reserva de recursos para pagamento
da dívida) de 93,5 bilhões de reais, que superou a meta
definida pelo FMI, foi suficiente para o pagamento de juros que atingiram
157 bilhões e 100 milhões de reais (incluindo as esferas
federal, estadual e municipal). Lula governa para os banqueiros e latifundiários;
não passa de um capacho do Banco Mundial/FMI mas disfarça
usando um discurso populista. “Continuarei governando o Brasil para
todos, porém continuarei dando mais atenção aos mais
necessitados. Os pobres terão preferência em nosso governo”,
manifestou durante a celebração da vitória eleitoral.
Juros consumiram
1 trilhão e 200 bilhões de reais, em 5 anos (governos FHC
e Lula)
A seção
paulista da entidade sindical dos auditores-fiscais divulgou estudo que
prega uma auditoria para passar um pente-fino na dívida brasileira,
que suga boa parte do orçamento do governo federal.
No estudo “Execução Orçamentária do
Brasil – De FHC a Lula”, que analisa o destino dos tributos
arrecadados no Brasil nos dois governos do ex-presidente Fernando Henrique
e no atual, do presidente Lula. O estudo diz que o País pagou mais
de 1,2 trilhões de reais de juros da dívida entre 2000 e
2005, e constata que mesmo assim ela não diminuiu, evidência
de que os juros pesam demais. Mais ou menos metade do pagamento de juros
foi feito com dinheiro de impostos tirados na sociedade (superávit
primário). O resto dos recursos, o governo arranjou pedindo emprestado
ao mesmo “mercado” - fazendo dívida nova para quitar
antiga, alimentando uma “bola de neve de juros sobre juros”,
segundo o documento.
Como o pagamento de juros consome parcela significativa do orçamento
federal, seria “imprescindível” auditar a dívida,
para iluminar a “caixa-preta”. De 1995 a 2005, a carga tributária
subiu de 29% das riquezas nacionais para 37%. “O efeito que sentimos,
no mundo real, do peso dos tributos, tem como causa invisível o
volume dos encargos da dívida”, diz o estudo.
Atualmente, a dívida
pública brasileira supera 1 trilhão de reais. Responsável
pela gestão da dívida, a Secretaria do Tesouro Nacional,
uma repartição do ministério da Fazenda, é
contra a auditoria. Totalmente submissos ao FMI a equipe econômica
rejeita totalmente idéias do gênero e fazendo coro com o
oportunista Lula defendem o integral pagamento da chamada dívida,
que já foi paga várias vezes e segue aumentando.
Lula prepara ataque aos direitos dos trabalhadores
Passada a farsa eleitoral,
Lula tirou a mascara e assumiu o seu papel de gerente de plantão.
No intuito de aplicar os ditames do FMI-Banco Mundial, Lula conclamou
toda a sociedade, a começar pelas lideranças políticas,
governadores, prefeitos e movimentos sociais oportunistas, para “juntos
construírem uma agenda comum de temas de interesse geral”.
“É necessário, igualmente, criar um clima de profunda
responsabilidade republicana para a discussão e votação
de reformas importantes, a começar pela reforma política”,
afirmou. Esse chamado pacto, como em tantos outros momentos da história
do Brasil, serve aos interesses dos grupos monopolistas e imperialistas
no país.
Tanto empenho do oportunista
Lula e seu desembaraço na farsa eleitoral foi saudada em telefonema
do representante do imperialismo estadunidense, George W. Bush, que convidou
Lula para viajar aos Estados Unidos, e o presidente aceitou a oferta.
A viagem, entretanto, ainda não tem data para acontecer. Provavelmente
vai ocorrer o mesmo que aconteceu antes da posse no primeiro mandato,
em 2002, quando Lula foi a Wasghinton e recebeu ordens do imperialismo
ianque sobre a composição do Ministério da Fazenda,
Meio Ambiente e Banco Central, entre outras.
A quebra dos direitos trabalhistas que os trabalhadores brasileiros ainda
têm é um dos principais objetivos das classes dominantes.
Sob a máscara de “modernização da legislação
trabalhista” os grandes empresários defendem como uma das
“grandes reformas que o país necessita para retomar o crescimento.”
A afirmação foi feita dia 29 de junho, pelo presidente do
Conselho de Relações de Trabalho da Confederação
Nacional da Indústria (CNI), Dagoberto Lima Godoy e reafirmada
agora pelo presidente reeleito da CNI, Armando Monteiro, durante sua festa
de posse, no último dia 17 de outubro.
Crise do Estado
brasileiro
O povo não tem conseguido
mudar nada, com seu voto. De quatro em quatro anos é intimado a
escolher um novo gerente para o mesmo velho e podre Estado brasileiro.
Estes resultados, portanto, refletem, de um lado, o grau de profundidade
da crise existente, hoje, no Brasil - expressão da crise do capitalismo
burocrático mantido sob o regime semicolonial no país. Além
de refletirem também, por outro lado, a crise do oportunismo, no
poder.
Os candidatos que disputaram
à presidência, Lula e Alckmin, estão em siglas partidárias
diferentes, e têm estilos e trajetórias políticas
distintas, mas ambos têm o mesmo projeto: manter a política
econômica e social que interessa às classes dominantes e
aprofundar no país o atual modelo pró-imperialista de dominação
e exploração.
Ou seja, existe entre eles
uma concordância sobre a política econômica conservadora
e entreguista a ser aplicada no Brasil, mas não existe unidade.
É uma disputa entre partidos que representam os interesses das
duas frações da grande burguesia no país (a fração
compradora e a fração burocrática) pela hegemonia
do Estado. Ainda que as duas frações tenham interesses comuns,
enquanto classes exploradoras, elas têm, por outro lado, interesses
econômicos específicos e brigam entre si por maior parcela
de poder. E durante as eleições, estas contradições
interburguesas acirram-se ainda mais.
A gerência
de Lula e seu desempenho eleitoral
Geraldo Alckmin não
cresceu nas pesquisas (até os 41.6%), nos últimos dias do
primeiro turno, por ter apresentado uma proposta alternativa melhor à
candidatura de Lula. Mas, sim, porque a candidatura de Lula perdeu força
na reta final, diante de mais um escândalo de corrupção
envolvendo pessoas de seu governo e do alto escalão do PT, numa
negociata da ordem de 750 mil dólares, para a compra de um dossiê
contra seus adversários políticos.
E Lula, afinal não
se reelegeu no primeiro turno, como previam as pesquisas, porque seu governo
acabou marcado pelos sucessivos escândalos de corrupção,
e também pela frustração popular decorrente da diferença
entre seu discurso, quando estava na oposição, e sua prática,
na presidência do Brasil.
Lula presidente aplicou
todo o receituário do capital financeiro internacional. Garantiu
um superávit primário mínimo de 4.5% do PIB (Produto
Interno Bruto), cortando investimentos nas áreas sociais como saúde,
educação, habitação, entre outras. E tem praticado
no país as mais altas taxas de juros do mundo que são o
dobro das elevadas taxas de juros cobradas na Turquia, o segundo colocado,
ocasionando o aumento da dívida pública para mais de 1 trilhão
e 331 bilhões de reais.
Lula fez algumas das reformas
antipovo acordadas com o FMI. No caso da Previdência Social, isto
significou um absurdo aumento do tempo e da idade para a aposentadoria
do setor público e a criminosa taxação dos aposentados.
Está aplicando a contra-reforma universitária, que nada
mais é do que a privatização das universidades públicas.
E se prepara para fazer as contra-reformas sindical e trabalhista, cujo
objetivo é o de desmontar os sindicatos classistas e combativos,
para depois retirar direitos já conquistados pela luta dos trabalhadores
brasileiros.
Mas, durante a gestão
de Lula, a situação se agravou principalmente no campo.
A contradição entre camponeses pobres e latifundiários
aumentou muito. A situação fundiária no Brasil é
a mesma há 500 anos, desde o início da colonização
portuguesa, e ainda subsistem, no país, relações
de propriedade e de produção semifeudais. Hoje, 50% das
terras estão nas mãos de apenas 1% de proprietários!
E embora Lula tenha prometido fazer a 'reforma agrária', não
conseguiu nem se igualar ao pouco, que foi feito por seu antecessor.
Ao contrário, a
política agrária de Lula representou mais repressão
contra os camponeses pobres em luta pela posse da terra e destruição
do latifúndio. Foram inúmeros os casos de prisões
políticas; de despejos violentos feitos pela política militar;
de espancamentos, inclusive de jovens e mulheres; de torturas; ameaças
individuais e assassinatos coletivos em várias regiões do
país. Os dados oficiais apontam que 200 camponeses pobres foram
assassinados somente durante a gerência de Lula e, atualmente, existem
mais de 100 camponeses presos políticos no Brasil.
A crise social agrava-se.
Com a estrutura de produção e mercados, cada vez mais oligopolista
e mais controlada por capitais estrangeiros, a crise social não
cessa de progredir. De 1995 a 2005, os investimentos do governo com saúde
caem de 9,5% para 6% do orçamento; com educação de
5,8% para 2,7%;; com transportes, de 1,6% para 1,11%. Persistem as elevadas
taxas de desemprego, os trabalhadores sofrem um violento arrocho salarial,
cai a participação da força de trabalho na renda
nacional, acentuando a miséria e a delinqüência. Segundo
dados da ONU, 60 milhões de brasileiros vivem com menos de 2 dólares
por dia e 30 milhões literalmente passam fome.
Segundo turno eleitoral
No segundo turno eleitoral
ocorreu o acirramento da disputa entre os grupos de poder, pelo controle
do aparato estatal. O PT perdeu força política e eleitoral,
conseguindo assegurar a vitória nas eleições de governadores
estaduais, em apenas 5 dos 27 estados brasileiros. E por sua vez, o PSDB
está também bastante desgastado após os 8 anos da
gerência de Fernando Henrique Cardoso e das denúncias de
corrupção que atingem também políticos do
PSDB. Recaiu sobre o candidato Alckmin a responsabilidade pelos terríveis
massacres de pobres, ocorridos em São Paulo, quando ele era governador
do estado. E surgiram diversos casos de defecção e de troca
de lado, por parte de políticos aliados, como é o caso da
governadora do estado do Maranhão, Roseana Sarney, do PFL, filha
do ex-presidente José Sarney (grande cacique político latifundista),
que se negou a seguir seu partido no apoio a Alckmin e apoiou Lula.
Novo cenário
político no país
Os programas de políticas
compensatórias, adotados em seu governo, como o Bolsa Família,
garantiram a Lula milhões de votos nas regiões mais pobres
do país. Esses programas coorporativos funcionam como uma chantagem,
mantendo a massa pobre e faminta aprisionada a eles. Mas, ainda que, eleitoralmente,
angariaram votos para Lula, eles não são suficientes para
criar uma situação de legitimidade e muito menos para garantir
a estabilidade política necessária para governar. Com Lula
reeleito, a crise crônica da estrutura política e do sistema
de governo no país vai se agravar!
De qualquer modo, independente
do resultado eleitoral, um novo cenário político já
está se conformando no Brasil. A crise impede os de cima de seguirem
governando como antes. E o povo não aceita mais seguir vivendo
como até então. Além desses fatos, o agravamento,
fora do comum, dos problemas e sofrimento da ampla maioria da população
está fazendo com que o movimento popular - que viveu grande refluxo
após a eleição de Lula em 2002 - tome novo impulso.
A greve nacional dos bancários, que durou vários dias, assim
como as novas tomadas de terra pelos camponeses pobres, são alguns
exemplos dessa nova realidade.
O que pode parecer, à primeira vista, um cenário de muitas
dificuldades e problemas para o povo, é justamente a base material
sobre a qual se desenvolve um vigoroso e combativo movimento de massas,
do campo à cidade. As transformações profundas que
o Brasil necessita só ocorrerão através de um movimento
revolucionário e a longo prazo.
Liga Operária
Belo Horizonte, 1º
de novembro de 2006.
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