Março 2005

Latifundiários mandam polícia censurar o jornal
Resistência Camponesa


No início de fevereiro policiais estiveram em algumas bancas de jornal em Jaru para recolher o Resistência Camponesa, jornal que divulga a luta camponesa combativa e circula em vários municípios do Estado. Os policiais perguntaram aos proprietários sobre quem entregava o jornal, na banca da rodoviária levaram 11 exemplares. No início deste mês o Major da PM Enedy Dias de Araújo abriu processo por “calúnia e difamação” contra dois membros da LCP, Caco e Camarão além do advogado Dr. Ermógenes Jacinto de Souza, o major acusa os três como responsáveis por uma matéria que denúncia seu possível envolvimento com latifundiários da região. A matéria foi publicada no Resistência Camponesa n. 8 do mês de novembro de 2004.

Os 2 companheiros e o advogado foram intimados a depor. Durante o interrogatório no dia 11 de março, delegado Samir insistiu para que o companheiro Camarão e o Dr. Ermógenes revelassem onde é feito o Jornal e quais os membros da LCP eram responsáveis pelas matérias. A secretária da LCP, Tatiane depôs sobre pressão do delegado que quis saber nome de pessoas envolvidas com o jornal, quem financia, quantos são impressos, de onde vem as matérias. a secretaria disse que as denúncias vem dos acampamentos e assentamentos e as pessoas não revelam seus nomes pois não confiam na justiça do latifúndio.

Foram intimados também pequenos e médios comerciantes que publicam anúncios no jornal, os policiais queriam saber quem pagou e quanto pagou por cada anúncio. Na gráfica onde são impressos os exemplares, os policiais a mando do delegado Samir tentaram intimidar os proprietários chegando ao absurdo de exigir que antes do jornal ser impresso teria de passar primeiro nas mãos da polícia. A dona da gráfica não deixou se intimidar e disse que apenas faz seu trabalho, precisa pagar seus funcionários e que está aberta a qualquer um que a procure.

As denúncias sobre a ação de bandos armados de jagunços em conluio com policiais militares a serviço de latifundiários foram recolhidas junto aos camponeses de várias áreas que sofreram ataques durante o segundo semestre de 2004. Elas foram enviadas há 5 meses atrás ao gabinete do presidente da República, à Secretaria Nacional de Direitos Humanos, ao Ministério Publico Federal e Estadual, ao Incra de Rondônia, Ouvidoria Agrária Nacional. No entanto as denúncias não foram apuradas, nenhum camponês foi ouvido, nenhum jagunço ou latifundiário foi preso, nenhum policial foi afastado.
Agora os carrascos querem se fazer passar por vítimas, processam injustamente os companheiros para abafar as denúncias e atacar o jornal que como porta voz da luta camponesa combativa trata de reproduzir as opiniões e reclamos dos camponeses pobres.


Por que estão atacando a Liga e o jornal Resistência Camponesa?


1). Porque apesar de toda propaganda que faz o governo federal de que a economia está crescendo, de que aumentaram os empregos e de que está empenhado em fazer a reforma agrária, os números e a realidade demonstram o contrário. Ou seja, as pequenas e médias empresas estão quebrando, o desemprego é enorme, os bancos com altos juros e os grandes empresários são estrangeiros e não existe reforma agrária nenhuma. Em Rondônia não assentaram uma família sequer, e o número de camponeses mobilizados em luta pela terra já passa de 5 mil, sem falar nas 39 mil cadastradas pelo Incra.

2). Porque o jornal Resistência Camponesa se sustenta graças à contribuição e esforço dos camponeses pobres e de pessoas que apóiam nossa luta, pois sabem que é justa, ao contrário dos grandes jornais que são mantidos com muito dinheiro do latifúndio. Por isso os latifundiários estão atacando o jornal, pois não podem controlá-lo.

3). Porque o jornal abre o olho dos camponeses em luta pela terra contra as medidas oportunistas e reacionárias, como, por exemplo, desmascarando o papel sinistro da “Comissão Paz no Campo” que serve para acobertar os crimes do latifúndio e criminalizar os camponeses.

4). Porque querem esconder a corrupção policial e a vinculação da PM com o latifúndio.
Ora, todos sabem, por exemplo, que em Corumbiara no massacre da fazenda Santa Elina os latifundiários atuaram livremente pressionando juízes, conseguindo liminar em tempo recorde e ofícios, colocando as notícias nos jornais e nos demais meios de comunicação sempre a seu favor e desqualificando os camponeses.

Todos sabem que atuaram pagando o transporte das tropas, fornecendo alimentação, veículos, infiltrando jagunços junto às tropas. Na verdade, ficou caracterizado que o massacre foi uma empreitada particular, financiada por latifundiários, onde a polícia estava a serviço de fazendeiros e até certo modo sob o "comando" dos mesmos. Antenor Duarte foi visto no QG da PM e seu capataz José Paulo Monteiro estava tão à vontade naquele lugar, que tirou o camponês Sérgio Rodrigues dentre os presos, jogou-o dentro de uma Toyota e nenhum policial, oficial, subcomandante ou o comandante, "viu". Os camponeses viram e denunciaram mas suas vozes foram caladas. O corpo do companheiro Sérgio foi encontrado dias após com sinais brutais de tortura.

O Coronel Ventura, responsável pela retirada das famílias da fazenda, em entrevista, que não permitiu gravação, comentou sobre as pressões que sofrera naqueles dias. Ele disse que: protelou ao máximo o cumprimento da determinação judicial, porém recebeu pressões do juiz, do poder executivo, via comando geral da polícia militar, do fazendeiro e de advogados, chegando ao ponto de ser alertado de que seria processado por desobediência caso não desse cumprimento àquela ordem.
Os fatos mais recentes também comprovam isso, pois em todas ações de despejo ou ataques a acampamentos policiais e jagunços atuam juntos e em geral sob comando dos fazendeiros.


O major quer censurar o jornal como nos tempos da ditadura militar

Podemos dizer que o objetivo do processo montado pelo Major Enedy e pelo juiz é de identificar os companheiros da LCP responsáveis pela elaboração do jornal para depois prendê-los. É intimidar os apoiadores para que estes deixem de contribuir com o jornal dificultando financeiramente a realização do mesmo. O modo arbitrário, injusto e fascista como atuam vai contra o Art5. da constituição brasileira que diz em seu parágrafo IX: “- é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independente de censura ou licença;”

Conclamamos a todos os democratas, advogados, intelectuais, professores e jornalistas honestos, estudantes, pequenos e médios comerciantes a repudiar a repressão ao movimento camponês em todo o Brasil e particularmente em Rondônia, repudiar e denunciar as medidas fascistas e oportunistas aplicadas para deter a luta dos trabalhadores por melhores condições de vida e de trabalho. Conclamamos a apoiarem e defenderem a imprensa popular e democrática.